Igualdade salarial entre homens e mulheres é questão de decisão
09 Mar 2020
Paula Paschoal, diretora geral do PayPal Brasil
 
No caso do PayPal, bastou que nosso CEO, Dan Schulman, resolvesse acabar com a diferença salarial entre eles e elas. Corria o ano de 2016. Numa reunião com o board as coisas simplesmente aconteceram. “Done”. Esteé um tema particularmente caro para nós, porque, desde 2015, quando nos tornamos uma empresa independente, isso nos permitiu criar uma estrutura de interesses coletivos e políticas internas.
E um dos itens dessa estrutura era que homens e mulheres que ocupam cargos similares deveriam receber o mesmo salário. Simples assim!
Em minhas palestras pelo Brasil, sempre que tenho oportunidade (e também quando não tenho), gosto de falar sobre o tema. Porque precisamos investir mais tempo e dedicação a essa questão, que não poderia – ainda – ser polêmica. O estágio da desigualdade salarial em muitas empresas nacionais e globais, nas quais homens recebem até 30% a mais do que mulheres na mesma posição hierárquica, é inexplicável e indefensável.
É questão, pura e simples, de se fazer justiça. Levando-se em consideração que as mulheres são maioria em cursos de graduação, mestrado e doutorado desde o começo desta década (de acordo com dados recentes do Capes), creio que podemos cobrar, já na próxima década, no mínimo a equidade. 
As mulheres estão cada vez mais preparadas, intelectual e emocionalmente, para alcançar o sucesso pessoal e profissional – trata-se de um fato. Então, por que continuam a receber menos?
Nem vou citar a capacidade multifuncional das mulheres ou a sensibilidade feminina, o que não significa que estou negando as duas qualidades, muito pelo contrário. Só não acho que é preciso enaltecer características inatas para provar que merecemos tratamento igual em qualquer lugar e em qualquer ocasião.
Não somos melhores do que ninguém e não deve ser esse o objeto da discussão. O que queremos é, apenas, respeito pela verdade dos fatos, pela verdade que estamos escrevendo há décadas. 
Sei bem o quanto nos custa, como mulheres, cada conquista. E também o quanto ainda temos para conquistar, apenas para nos equipararmos em direitos aos homens. De nossa parte, o que precisamos mudar (aliás, isso já deveria ter acontecido) é a consciência da própria mulher, consciência de que pode ser o que quiser, escolher o próprio caminho, ser feliz consigo mesma. Esse talvez seja o maior desafio, porque estamos lidando com a autoestima, tão minada através dos séculos.
Esse é mais um motivo pelo qual me dedico, diariamente, à causa. Porque, ao analisar minha experiência pessoal, notei a falta de incentivo às mulheres interessadas em seguir carreira executiva por causa do mito do inalcançável equilíbrio entre vida pessoal feliz e trajetória profissional de sucesso. E, infelizmente, ainda faltam exemplos de casos bem-sucedidos mostrando o chamado “caminho das pedras” para elas.
O atual cenário me comove também por um outro motivo: empresas com mulheres em cargos de liderança têm resultados melhores, inclusive na rentabilidade. Essa é a conclusão de um relatório chamado Women in Business and Management: The Business Case for Change, divulgado no ano passado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão da ONU. De acordo com a pesquisa, quanto maior o número de mulheres, sobretudo em posições de chefia, melhores são os resultados de uma organização. 
Para chegar a essa conclusão, o relatório analisou mais de 70 mil empresas em 13 países. Entrevistados relataram ganhos em produtividade, rentabilidade, criatividade e inovação em equipes com maior diversidade de gênero. Além disso, 57% dos pesquisados disseram perceber melhorias na reputação, ou seja, na imagem pública da empresa.
A lição que se pode tirar de tudo isso? Invistam nas mulheres. É um autêntico ganha-ganha para todos.
 
Um feliz Mês da Mulher! 

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